Autor: Anderson Silveira
Contato:andhersan@gmail.com
Sinopse: Às vezes, a vida é mais estranha que a ficção. E, na maioria das vezes, uma calcinha empalada é apenas uma calcinha empalada...
Na minha rotina idiossincrática de ida para o trabalho passo por um terreno baldio que é cercado por outdoors, que por sua vez é como todo terreno baldio: Um depósito alternativo para o lixo e a falta de educação.
Pois bem, num certo dia ao cruzar por ali noto que há lixo novo jogado ali, já devidamente espalhado pelos vira latas, mas algo chama a minha atenção pela cor e pela forma. É uma calcinha, vermelha, estropiada, e a julgar pelo lixo ao seu redor bem fora de contexto.
Mas enfim, é lixo e gente relaxada a há aos montes por aí mesmo então nada de muito novo. Passei por ali mais um dia e a dita cuja lá e no terceiro dia ela estava empalada no chão perto da calçada.
Sim isso mesmo, empalada com duas diminutas estacas prendendo ela de extremidade a extremidade deixando-a totalmente esticada. Como se ela tivesse sido punida por ser calcinha, vermelha e estar estropiada e jogada num terreno qualquer.
Depois de um embaraçoso ataque de riso fui para o trabalho e comentei o fato com alguns colegas, a partir daí o fato ganha corpo e vida.
Eu continuei meu trabalho burocrático e sem fim, aliviado apenas pela lembrança da calcinha empalada que ainda me fazia rir sozinho.
Meu chefe me pegou rindo duas vezes, na segunda disse:
- Não lhe demito por que se esses ataques de bobeira forem decorrentes do excesso de trabalho teremos de indenizá-lo, portanto, tente se controlar estamos pra ter uma auditoria muito em breve.
Voltei para casa para o almoço ela continuava lá religiosamente pregada no chão (perdoem o trocadilho).
Paralelo a isso, o meu singular relato daquele acontecido se espalhou entre os meus colegas de departamento ganhando proporções ainda mais bizarras que o fato em si. Quando chegou ao andar de cima a calcinha já tinha dona, um motivo para estar lá e um algoz empalador!
Tudo isso em algumas horas e o melhor de tudo, sem que eu soubesse de nada.
A calcinha-vermelha-estropiada alcançou a internet e se transformou numa prostituta arrependida e convertida por um fanático que de espírito alquebrado e apaixonado pela mesma num ato de paixão decidiu purificá-la de todo o seu pecado, era o fim do dia.
Findado meu horário fui pra casa, já no meio do caminho vi que uma vez mais chegaria tarde devido ao congestionamento. Mas estranhei ao ver sirenes de policia e um volume anormal de pessoas logo que desci na minha parada.
Maior foi a minha surpresa ao ver um aglomerado de pessoas perto do terreno onde estava a calcinha! Apressei-me para ver o que tinha acontecido, mas a pequena multidão se acotovelava para tentar ver alguma coisa, sem sucesso tentei me aproximar e vi que tinha alguns policias tentando por ordem, mais próximo de onde deveria estar a calcinha tinha umas senhoras com velas acesas e pareciam estar rezando.Então perguntei para um curioso mais alto do que eu o que estava se passando ali ao que ele respondeu:
- Parece que uma seita religiosa crucificou uma mulher que eles diziam ser prostituta aqui, mas parece que ela não tá mais ali só ficou uma calcinha rasgada que obrigaram ela usar, coitada morreu como uma santa.
Nesse momento o ataque de riso que tive pela manhã não foi nada comparado àquele que tive ao ouvir tudo aquilo, nisso a multidão se virou pra mim que arqueado de tanto rir tentava puxar o ar para tentar respirar.
Depois de alguns minutos fui recuperando o fôlego ao som de protesto de algumas pessoas que gritavam como eu podia estar rindo numa cena de tragédia. Então expliquei que realmente era só uma calcinha mesmo, que a essa altura já não estava mais pregada no chão, eu ainda com um sorriso no rosto vi uma dezena de outros rostos se fechando, um silêncio assustador se fez. Lembrei do Forest Gump. E corri, corri o mais que pude como nunca a havia feito na minha vida.
Hoje, não trabalho mais no escritório, não moro mais naquela cidade, minha casa foi devastada e queimada.
Mas descobri duas coisas com o ocorrido: O gosto pela corrida e pelo escatológico, Agora sou gari. Na minha nova vida, corro atrás do caminhão da coleta e de vez em quando acho coisas que até Deus duvida.
A Calcinha Empalada
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